12.1.17
three words plus relief
Não quero invalidar esse tempo porque eu conheço as regras. Mas é tão aconchegante a ideia de em algum lugar ter voz. Estou na rua, no carro. Procuro por todos os lados. Faces e faces e faces. Eu até vejo o que não tem. Procuro em todo lugar. Em todo lugar. Em todo lugar. Em todo lugar. Três palavras mágicas. Obrigada. Eu também.
11.1.17
diagnóstico e terapêutica
Tenho visto diversas pessoas diariamente e talvez a manhã seja o melhor momento do dia por isso. Hoje, em especial, um senhorzinho cheio de ternura. Trouxe seus exames e os exames da mulher. Ele sofre porque ela sofre, e ele sente falta dela feliz e saudável. Fazem 67 dias que ele não fuma mais, e a alegria de ter superado o faz contar de uma vida toda em que sofreu sem achar que tinha solução, mas tinha. E ele achou, e ele sofreu um bocado. Hoje ele sorri o tempo todo, e conta da sua senhora. A senhora dele está longe dele mas ele busca soluções muito mais do que busca pra ele mesmo. Ah, os problemas no pulmão? Eu quero é minha senhora bem. Cheio de receitas e depois de muitas perguntas, ele segue pra casa. E ele vai mais uma vez tentar a fazer feliz. Porque melhor do que respirar novamente, é curar o amor. E sorrir o tempo todo.
10.1.17
Gritos de um corpo cortado pelas navalhas do silêncio
Não aguento o silêncio. Tenho momentos mas eles não são tão meus quando não faço deles, teus. A vida é mais doce a dois. A nós dois adoçando a vida, engolindo a amargura. Ai, que está amargo assim. Mas eu aguento. Mas o silêncio... o silêncio me mata todo dia. Me peguei até rezando pra que o açúcar do teu beijo adoce minha testa, meus lábios, meu corpo, minha vida. Minha vida é tão mais minha quando compartilho contigo. Me peguei acreditando que alguém no universo está escutando meu pedido, meu choro, minha dor funda no peito, e assim vai girando lentamente a roleta do tempo até sortear você pra mim de novo. Nosso amor é o melhor tempero, a melhor montanha e a melhor dança que adoça minha vida. Do melhor jeito. E me calo de novo com a força que só a vontade de te ver feliz me dá. Coragem.
Amor de índio
Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo cuidado, meu amor
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver ao teu lado
Com o arco da promessa
No azul pintado pra durar
Abelha fazendo mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir teu calor
E ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for
E ser tudo
Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado, meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do teu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver
No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar
E andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir teu calor
E ser tudo
28.12.16
Resolução 2: a criança que ainda somos
A eu criança sempre gostou de brincadeira de muita gente, de muita fala e muito canto e tudo muito alto. Mas a eu criança sempre admirou aquelas crianças que brincavam de pouca gente, de pouca fala e muito silêncio. Como será? Uma sala, uma mesa, diversos materiais. Da cozinha dá pra o ver durante horas corridas. São doces horas silenciosas cheia de arte. A gente nasce pronto pra essas coisas? A gente nasce pronto pra querer dar um pedacinho de si para todo mundo? A gente nasce pronto pra guardar todos os nossos pedacinhos num papel colorido cheio de desenhos? Essas histórias me encantam porque elas desenham o hoje. Uma criança-explosão com uma criança-fusão. Uma indagada com a outra: como pode? Queria um insight desse lado da história. Ano vai ano vem. Menina-mulher-explosão com um homem-fusão? Olha essa menina de vestido azul jogando fora toda dança que tem dentro dela pra todo mundo ver, sem medo nenhum: como pode uma menina assim? Olhe esse menino de violão da mão tocando todo talento dentro dele pro silêncio, sem querer provar coisa nenhuma pra ninguém: como pode um menino assim? E pode.
O menino dos desenhos trocou os lápis por cordas, mas usa das mesmas horas de silêncio. Eu acho lindo, mas eu comecei a não entender. Será que eu não coube no silêncio?
Essa resolução também é minha carta de natal atrasada. Porque meu coração só ficou pronto agora. Conexão 2013-final de 2016: hoje te vi compenetrado no infinito do teu silêncio igual via quando ainda era um mistério pra mim. E essa sensação me faz lembrar da curiosidade apaixonante que palpitou altíssimo em mim. Vi que a criança que fomos ainda existe tão fortemente dentro de nós, e sempre nos disse algo sobre quem seríamos. A eu-criança-de-muita-gente olhava curiosa pra você-criança-de-pouca-gente. E hoje, simplesmente eu olhei de novo para ti como o mistério que eu mais gosto. Eu me encontro nas pessoas, e ele se encontra nas artes da própria alma. Como pode? Ah, ainda bem que eu pude! Achei de novo a chave da pequena porta para esse mundo que me lembra a tamanha felicidade que é poder o conhecer. Eu a tranquei por um tempo sem perceber. Mas, em tempo, lembrei como é mágico poder a abrir.
Fim de ano: abrindo as portas que me levam a viagem singular que é estar do teu lado. Posso entrar?
Resolução 1: amar é intransitivo.
Todo fim de ano me traz uma resolução. Esse fez doer dentro de mim, tocou o sentimento mais protegido do meu coração. Aprende, diz ele! Sente a dor da perda e aprende a ver ele indo. Para voltar. Essa resolução torturou tanto e é tão difícil aprender arriscando o que amo. Ah! Que palavra boa para cutucar todo meu medo. Amar, amar e amar. Aprende a leveza do sentimento, e ensina! Por que o torna tão pesado quando sabes que é doce, assim já o provou? Por que ficaste com tanto medo de um pequeno verbo? É mentira que é transitivo. Para quem consegues entregar humildemente o que é teu, quando és fraco, e vibrar quando és forte? Parem de complicar o amor! Amar é simplesmente intransitivo e incansavelmente plural. Eu e você. Você e eu. PLURALIDADE, simplesmente! As formas são mais diversas mas elas são as formas que desenham vocês, elas existem! Enxerguem-as. É isso que esse ano grita pra mim. E no início é só barulho e medo de não sentir o amor. Depois o encaro com medo, esquivo-me diversas vezes. Eu não sei se existo! Diz ele pra mim. Deito e choro. Mas esse ano, não muito gentil mas extremamente educador, puxa-me e me manda parar de esquivar: não queres perder? Aprenda além de você. Desse jeito cancelas tantas formas que sim, são tímidas e subjetivas, mas genuínas, e as cancela por achar que és a única que sabe o que é amor! Para de o tachar. Assim nunca haverá amor para ti.
É fácil entender a própria formar de amar. Nós crescemos a exercitando e idealizando que essa é a fórmula, até se chocar com a realidade de algo extremamente maleável. É claro que dói, mas tire os olhos de tua ideia pronta e olhe para essa nova forma. Aprenda a aceitar e sentir. As diversas formas levam para o mesmo objetivo. E o ano olha nos meus olhos e mostra que sabe quando o medo compete com o amor. Ele não ganha se você não deixar. As vezes dói, mas quem dói é o medo. Amar é doce, quem deixou-me amargo foi tu, cheia de medo. Liberta-te!
Aprendi a tentar, de verdade, meio cambaleando e errando as tentativas sobre você. Aí! Eu risquei nosso disco tentando aprender sobre nós. Mas cabe não só a mim, mas a nós, lembrar que vida vivida tem riscos. Cicatrizes. Arrancaram um pedaço da minha carne. "Acho que não volta mais", eu te disse, mas demorei a lembrar de todo o resto de corpo e carne e vida e força segura esses pedaços sem nada. Pedacinhos de história riscados em nós lembrando que dói, mas passa.
O ano simplesmente me diz que os motivos que me machucaram são por causa dessa tal pluralidade desse formato maleável, que a língua diz que precisa de complemento mas o coração (certíssimo, concluo portanto) diz que é intransitivo. Amar não tem justificativa. Eu não vou mais tentar justificar o amor. Eu vou simplesmente amar para encher teu coração e abrir o meu, mas agora sem formas, e sim uma grande entrada para entrar tudo que você querer me dar. E o encherei até quando quiseres.
27.12.16
2016: Nietzsche professor de gênios do mal
Imagina escrever uma obra inteira sem saber que ela seria o berço que balança pequenos gênios do mal. Aposto que Hitler lia Nietzsche. Outros estranhos também. Mussolini, Mao Tse Tung, Stalin. E agora que eu e mais um monte de gente também sabe? Tem bastante gente má, e com especialização? São muitos projetos maus, mas não sei como identificar. 2016. Caçada dos que leram Nietzsche e não esquivaram o nariz. Aos que não sentem a naúsea de Sartre. Difícil achar a flor no asfalto. E no meu buquê mais algumas caíram. Mesmo com água, carinho e zelo: murcham nas minhas mãos. Escorrem e não quero mais as buscar. Ah, Nietzsche, pare com o exército! 2016 ficou difícil assim. Não sei lutar e muito menos sorrir com e para inimigos. Seguro firme meu buquê: fiquem comigo. Nietzsche me apresentou o mal, mas é com minhas flores que sigo pintando o arco íris de um, quase impossível, ano novo.
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