3.5.13

Romeu, o fogo e Julieta

Nos colocamos no fogo em noites chuvosas onde a água não apaga o fogo que dilacera. Falamos o que não devia ser dito por ninguém, pega fogo o pito do cigarro. Mais um, mais uma prosa hostil. O amor é um laço que profetiza um fogo em conjunto, não pode me deixar em chamas sem se queimar também. Me queima, me dilacera, me destrói, mas no fim, a água que me apaga é a mesma que te apaga. Tu se apagas em mim e eu me apago em ti. Se Julieta fosse água, Romeu se afogaria. Se Julieta fosse fogo, Romeu se acabaria em chamas. Julieta foi veneno, e assim foi Romeu.

20.3.13

Entardece

Meus olhos vêem diferente. Hoje te vi no céu. Aliás, hoje o contemplei por mais tempo que o de costume, não por tolice, mas por familiaridade. Gosto de olhar para o céu e me sentir em casa. Gosto de fechar os olhos e sentir a última luz alaranjada do dia preenchendo minhas pálpebras com uma energia equilibrada com a que vem de mim. Gosto de ser leve, emitir leve, receber leve. Todo por do sol é um olhar, cada dia uma essência se estende pelo infinito esculpindo a beleza que se emite de dentro para fora. Teus olhos guardam tudo que teu corpo disfarça, definem com clareza as linhas e entrelinhas do teu fundo coração que, como o meu, insiste em fingir que não quer emitir nada, guarda batidas. No fundo do teu céu mistura-se todas as cores em linhas longas e expressivas, movimentam-se nuvens com rapidez porém sutileza, prende meus olhos. Prendo meus olhos nos teus, minhas curvas nas tuas, calo-me para ouvir o sussurro abafado que deixas no meu ouvido e ali fica por dias, semanas, meses. Tento segurar canções, vozes, ruas, mas quem sempre fica é teu olhar no meu, tua respiração na minha pele, teu sorriso torto rindo do meu. Todos os dias prendo os olhos no céu, hoje o céu prendeu meus olhos. Teus olhos compuseram o azul alaranjado mais belo que os que geralmente se manifestam. Olha-me. Prende-me

7.3.13

blind mind

Conta-me, espantado, que ao andar pela rua como de habitual avistou entre a multidão um homem cego. Olho em teus olhos e te pergunto o porquê de tanto espanto. Olha mais fundo nos meus, abismado com tal pergunta. Mas, meu bem, não é mais surpreendente pra ti saber enxergar num mundo onde ninguém mais sabe ver?

24.2.13

Bate

Espero que tu passe
Me passe a fome, me passe teu nome
Que junto passe o tempo
Para eu passar com você. 

E o nosso amor tem energia
Mas me apaga todo dia.
Liga uma luz fina
Que me acende com você.

Preciso te falar tantas coisas,
Lembrar tantas promessas loucas,
Viver mais em meus olhos do que nos teus.

Querem te apagar de mim
Apagando eu mesma.
Entre todas minhas riquezas
Uma delas é você

Consumo-me em dor e silêncio
Parto pés, mãos, braços e enredo.
Afundo-me tão escuro
De minha luz querem me castigar.

Parte-me o tempo, me parte tua falta,
Parte alegria, se desfaz a estrada.
Parte meu coração, repleto de você

quando meu coração parar
E voce ser o único que sente?
Que equaliza e me revive,
Me sente, me vale.

Espera-me, encontra-me
Não de primeira, mas de praxe.
Arranca a tristeza do meu peito
E diz, enfim, para meu coração:
Bate.

20.2.13

hallelujah

Voltei a olhar pro céu. 
Talvez todo esse medo da vida seja a falta de contemplação. Vivemos sob um belo infinito que nos cobre todo dia, e está ali para avisar que a vida vai além dessa escuridão que nos fardamos a viver. Escurecemos tanto nosso redor que, por vezes, esquecemos de apenas olhar pra cima e contemplar. Todos os dias são presenteados com um espetáculo silencioso que vai além do azul. Entrelaça rosa, azul, amarelo, violeta e luz. Desenha um esboço da vida. 
 Desvie a mente do seu pequeno mundo por um tempo, assista o infinito. Você supõe o céu.

16.2.13

remorsos

Como me irrita o fato de existir! A mim, a ti, a esse desenho sempre inacabado, no final sempre sem cores. Não sabes tanto quanto eu, e se estende ao meio de rostos, pés e mãos para esconder o que eu já sei. Sei que sou eu, sempre foi, sempre será, independente do resto do universo. E sempre foi você.

2.2.13

Whispering wind

  Só um espaço vazio demais mas, ao mesmo tempo, cheio demais. São sempre extremos.
 Sou sempre o inferno e o céu. Todos os extremos mais opostos do universo. Mal sei me conter em mim, mal sei me dividir com qualquer outro além de mim. E explode, meu mundo sempre pega fogo ao mesmo tempo que congela. Sempre choro ao mesmo tempo que rio. Por dentro e por fora, em trocas, nunca num completo. 
  Nunca mantenho meios estáveis, mal tenho começos. Não sei cuidar da minha cabeça nem espalhá-la pelo céu. Meu universo está confuso, de vez em quando perdido.
  Sou como água, mas nunca de forma saudável. Ou sou uma tormenta devastadora que destrói tudo que vê com uma onda, ou sou penetrável, vulverável e frágil como água parada, sem defesa, sem movimento. Nunca um equilíbrio. Nunca morna, sempre quente ou fria demais.
  Muito expresso mas pouco disso significa, despejo inúmeras palavras que, ao vento, perdem-se fácil. Do mesmo modo que me perco, vezes nem me encontro. 
  Encontrar-se é tão escuro, a gente nem gosta do que procura, nem acha a coisa certa, se perde em caminho já perdido. Pensa tanto em como mudar sentado em uma esquina qualquer, com uma garota vazia qualquer, um cigarro no canto da boca e mentiras sobre um gosto musical erudita. É tudo tão falso, é mentira, e todo mundo adora enganar, seja a garota vazia bastante ignorante, que oferece o corpo ao estranho ao seu lado, sujeito qual também se engana. Preenche sua vida medíocre com planos medíocres que sempre o levam a lugar nenhum com um alguém qualquer. É tão só mesmo sempre acompanhado. Nada posso falar, tão só me encontro que duvido de minha própria companhia. E que ocorram todos os tragos acompanhados de risos histéricos e parcerias alienadas, a histeria acaba e sempre sobra a mesma coisa, no mesmo canto e do mesmo jeito: eu em meio a solidão buscando meus pedaços.