3.4.16
Ponto? Ponto e vírgula.
Batemos. Pela janela que escorre o sangue também entra a luz. Chuva e sol são a vida e a morte de mãos dadas desenhando no céu uma pequenina porém forte lição: plenitude. Não temos espaço para tanta relatividade, tanto medo, tanta prisão. O tempo grande pode querer ser escasso em frações de sua existência. A vida é vasta, e assim é meu coração, dilatado pelo tempo que o aperta e diz: vive! Vive que não há tempo para relutar tanto sobre a felicidade. Expande a luz forte da alma que carregas, espalha esse amor gigante que é a síntese da tua existência. Batemos, e agora meu coração bate mais. Vê as mil cores do dia cinza. Bate com tanta ânsia pela vida que chega a doer. Chorou na tua ausência e aprendeu, ao bater, que o tempo contigo é ouro tão valioso. Ouro dos teus olhos, da luz dos teus olhos que parece mais forte agora. Que dança louca é a luz dos teus olhos nos meus, fundindo-se numa ondulatória colorida que desenha um céu tão lindo, o qual faz lembrar a liquidez que é viver. Mas é lindo o líquido. Escorre o sangue, evapora para o céu e chove em forma de renovação. Recomeço. Batemos para viver. Pego tua mão e seguimos colorindo.
21.3.16
we are infinite
Escuto.
O tom ecoa pelos cantos e me leva junto. Sigo de olhos fechados, guia-me a clave de sol do meu tom. Mas meu tom muda, e ele se perde também. Ele não sabe qual rumo seguir, que música tocar. O tom-eu é o silêncio, o soluço mudo que dói. Mas passa. Abro meu olho e aprendo a tocar, toco até meu tom se achar. Então ele me acha. O tempo cria novos caminhos para nos perdermos. Mas nos achamos, sempre. Numa mesa de bar me visto de outro tom. Toco diferente para tu te achares ao meio das músicas que em ti ecoam e te confundem. As vezes não sei ouvi-las, e paro de tocar. Mas, nessa noite, quero te fazer ouvir todas as músicas dentro de ti e ajudar-te a escolher a que melhor lhe veste. És um antro de sons, de poesia, de mistério para meus simples instrumentos de compreensão. Mas tento. Afundo-me nesse escuro teu, me aninho no teu breu, me perco em tuas canções, mas me clareio nos teus braços. Ah! Não existe mais bela composição que a batida de teu coração no ouvido meu, sussurrando baixinho: per-sis-te. Na mesa, teu tom não encaixa com meu disfarce. Não conheço todas composições, mas prendo-me forte a nossa pois ela ecoa dentro de mim gigante, densa, quente. Intensa. Ela encaixa. Com ela, sigo de olhos fechados. Mas. Vejo. Tudo. Enxergue também. Enxerga-me. Enxerga-nos.
Escuto.
8.3.16
Rabiscos
Lá vem o homem dos números. Ele me explica tamanhas equações e eu as pinto colorido com desenhos sem definição. No espaço do zero ele me conta uma história. Eu a pinto. Ele me ensina a dançar quando choro. Mas quando ele chora, eu choro também. Ele me diz que a vida é pequena demais pra viver de saudade. Mas eu sinto. Porque o homem dos números, no auge da sua exatidão, precisão e certezas concretas desperta em mim o oposto: o mais abstrato dos quadros.
O homem dos números me pede pela dança impossível. Enquanto ele se vai, quer me ver dançando. Eu choro, mas choro colorido porque, ao fundo da imagem, vejo o homem se indo no por do sol que canta.
Obladi, oblada life
Goes
On.
22.11.15
solitude
Minha escrita é um prato cheio para quem está dolorosamente só e um grande devaneio para quem está deliciosamente só. Provo dos dois. Leio em ambas situações. Sinto-me altamente compreendida por mim mesma por vezes e, em outras, uma grande incompetente no mundo da palavras. Mas só escrevo em uma situação: dolorosamente, desesperadamente só, mesmo que cercada de gentes de todos os tipos. Solidão não é só ausência física. É ausência de autoconforto, de autoconfiança, tantos "autos" para alguém tão baixo. Sento-me, explico a mim que não há razão nessa sensação. Não há mesmo, não há razão alguma que tire o rombo do meu peito quando me sinto só. Não há piada, festa,sexo ou companhia que me tire do escuro áspero da solidão dolorosa.
Solidão é a mão que afaga e depois bate. E não se estende de volta.
16.11.14
Corte de asas
Não adianta, Maria. Não há silêncio para o estardalhaço dos teus pedaços caindo ao chão. Não há nada senão os olhos do medo no lugar dos teus olhos profundos. Qual a chama que acende teu riso, Maria? É difícil aquecer tua alma se ficas caída no gelo imenso. Branco, Maria, branco, Maria. É difícil te achar se está sem vida. Não adianta, Maria. Não lhe cabe mais a capa que a fantasia de mulher heróica. Tire-a para mostrar a ti mesma o que tu és: hu-ma-na.
26.9.14
Perigo: devaneio
Chateiam-me meias palavras pois sei que as fala inteiras. Desculpe.
A morbidez do passado é sempre trava do meu presente.
Você a quebrou.
Não o vi chegar, mas foi como ser feliz de novo.
Perigo: devaneio
Chateiam-me meias palavras pois sei que as fala inteiras. Desculpe.
A morbidez do passado é sempre trava do meu presente.
Você a quebrou.
Não o vi chegar, mas foi como ser feliz de novo.
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